Em Sirāt, Óliver Laxe retorna ao deserto, não apenas como paisagem física, mas como território espiritual e existencial. O diretor espanhol, conhecido por seu olhar contemplativo e místico sobre o mundo, constrói aqui uma jornada que é, ao mesmo tempo, terrena e metafísica. O filme acompanha Luis (Sergi López) e seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona) enquanto atravessam as montanhas áridas do sul do Marrocos em busca de Mar, filha e irmã desaparecida após uma rave no deserto. O que começa como uma busca desesperada transforma-se gradualmente em um rito de passagem, um percurso onde o pó, o calor e o som pulsante das festas se misturam à dor e à esperança.
Desde os primeiros minutos, Sirāt impõe uma presença sensorial arrebatadora. A fotografia de Mauro Herce, parceiro frequente de Laxe, capta o deserto como uma entidade viva, ao mesmo tempo bela e cruel, que envolve e devora os personagens. A luz ofuscante, o horizonte que parece não ter fim e o silêncio cortado por batidas eletrônicas constroem um estado quase hipnótico. A trilha sonora de Kangding Ray, feita de ruídos e pulsações, não apenas acompanha a imagem, mas a atravessa, transformando o espaço em vibração. O deserto se torna, assim, um espelho do espírito humano – vasto, fragmentado, em busca de sentido.

O título do filme é uma chave simbólica essencial. “Sirāt” designa, na tradição islâmica, a ponte fina que as almas devem cruzar entre o inferno e o paraíso. Essa metáfora estrutura toda a travessia de Luis e Esteban, que caminham sobre sua própria ponte: entre o luto e a fé, entre a culpa e o perdão, entre o real e o inefável. O desaparecimento de Mar, mais do que um fato concreto, torna-se uma ausência que guia e transforma, como se sua sombra fosse o motor espiritual da jornada.
Laxe não busca contar uma história de forma linear. Seu cinema é feito de contemplação, de gestos mínimos e de silêncios cheios de significado. Os planos longos e o ritmo lento exigem do espectador não apenas paciência, mas entrega – é preciso atravessar o filme como quem caminha sob o sol escaldante, sentindo o peso e o cansaço da jornada. Nesse sentido, Sirāt é menos uma narrativa e mais uma experiência. O espectador, como os personagens, é convidado a se perder, a se dissolver na paisagem e nas vibrações sonoras.

As raves que pontuam a narrativa são retratadas com ambiguidade fascinante. Laxe as filma como celebrações caóticas de libertação e, ao mesmo tempo, como manifestações de um vazio coletivo. São comunidades efêmeras, unidas por uma batida comum, mas permeadas de solidão e desorientação. Luis, homem de outra geração, observa tudo com estranhamento – tentando compreender o que atraiu sua filha para aquele mundo. Esteban, por sua vez, oscila entre o medo e o fascínio: vê nas raves tanto a perda quanto uma possibilidade de transcendência. Essa tensão entre pai e filho, entre o velho e o novo, o racional e o extático, sustenta o filme emocionalmente.
As atuações de Sergi López e Bruno Núñez Arjona são de uma sinceridade desarmante. López encarna um homem consumido pela ausência e pela culpa, com uma contenção que diz mais do que qualquer palavra. Arjona, em contraste, expressa curiosidade e vulnerabilidade – uma alma em formação que tenta compreender o mundo à sua volta. Juntos, criam uma dinâmica que combina dureza e afeto, confronto e cumplicidade.

Formalmente, Sirāt é uma obra de uma beleza rigorosa. Cada quadro parece composto como uma pintura – a luz, a textura da areia, o movimento do vento – tudo contribui para a sensação de estar diante de algo sagrado e efêmero. É impossível não pensar em Tarkovsky, em Béla Tarr ou mesmo em Abbas Kiarostami, mas Laxe imprime sua própria assinatura: um cinema da escuta e da vibração, que dialoga com o presente sem abrir mão do mistério.
A dimensão simbólica se estende também para o contexto político e social. O deserto marroquino surge como fronteira, entre o norte e o sul, o ocidente e o oriente, o turista e o refugiado. É um espaço de trânsito e deslocamento, onde pessoas e crenças se misturam sem jamais se fixar. Laxe observa tudo com um olhar compassivo, transformando o cenário em metáfora para um mundo contemporâneo que perdeu o centro, onde a fé, as famílias e as certezas se dissolvem sob o sol.

Premiado com o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, Sirāt foi celebrado pela crítica como o trabalho mais ousado e maduro de Laxe. Alguns o chamaram de “cinema-meditativo”, outros de “transe filmado”. De fato, há algo de ritualístico em sua forma: o som, a luz e o movimento dos corpos compõem uma espécie de liturgia visual, um convite à contemplação e à purificação.
Mas Sirāt não se encerra em símbolos ou imagens grandiosas. No fundo, o que move o filme é o humano – o desejo de reconciliação, de perdão, de reencontro. Laxe entende que toda travessia é também uma busca por amor, mesmo que em meio ao deserto. E é por isso que, quando o filme termina, não há respostas, apenas uma sensação de leveza e silêncio, como se o espectador também tivesse cruzado uma ponte invisível.
Óliver Laxe reafirma-se, com Sirāt, como um dos cineastas mais singulares de seu tempo. Seu cinema não é de explicações, mas de epifanias. Ele filma o invisível – o vento, o som, a fé, o que escapa às palavras. Em um mundo saturado de ruído, sua obra oferece uma rara experiência de quietude e transcendência. Sirāt é, acima de tudo, uma meditação sobre o que significa caminhar, entre o céu e a areia, entre o luto e a esperança, entre o inferno e o paraíso.







