O Retorno – Uma Abordagem Intimista e Dramática do Épico de Homero

Em O Retorno, Uberto Pasolini revisita A Odisseia de Homero de forma intimista, optando por retirar o espetáculo mitológico para construir um estudo de personagem poderoso, maduro e profundamente humano. Ao adaptar apenas a segunda metade do poema, o diretor concentra sua narrativa no reencontro entre Odisseu e Ítaca após vinte anos de ausência, explorando não só os efeitos da guerra sobre o herói, mas também sobre aqueles que esperaram por ele — especialmente Penélope e Telêmaco.

Logo no início, não há sereias, ciclopes ou feitiços de Circe. O filme começa com Odisseu (Ralph Fiennes), naufragado em sua própria terra, acolhido pelo fiel escravo Eumeu (Claudio Santamaria). Disfarçado de mendigo, ele observa em silêncio a decadência de seu lar e o sofrimento de Penélope (Juliette Binoche) e Telêmaco (Charlie Plummer), submetidos às ameaças dos arrogantes pretendentes liderados por Antínoo (Marwan Kenzari). Essa escolha de Pasolini, longe de empobrecer a narrativa, a enriquece ao abrir espaço para um mergulho psicológico — em vez do herói épico e infalível, temos um homem marcado pela guerra, inseguro, hesitante e, sobretudo, humano.

Fiennes entrega uma das atuações mais intensas de sua carreira. Seu Odisseu é solene, atormentado pela culpa dos homens que perdeu e pelo peso das decisões que tomou, como a engenhosa, mas sangrenta, ideia do Cavalo de Troia. Em sua postura cansada, em seus olhos sempre em movimento, percebemos tanto o brilhantismo do estrategista quanto o fardo de um sobrevivente. É um desempenho que alia imponência e fragilidade, tornando o personagem mais próximo e real do que jamais foi no cinema.

Juliette Binoche, por sua vez, transforma Penélope em uma figura de impressionante profundidade. Se no mito ela é lembrada apenas como símbolo de fidelidade, aqui ela ganha densidade emocional: consumida pela saudade, ainda assim mantém uma resiliência quase sobre-humana diante da pressão dos pretendentes. Seus silêncios falam tanto quanto suas falas; seus olhos marejados transmitem dor, mas também uma firmeza inabalável. É uma das grandes forças do filme — Binoche entrega uma Penélope ao mesmo tempo delicada e indomável, ressignificando a personagem para além do papel de esposa que espera.

A química entre Fiennes e Binoche é o coração pulsante da obra. Suas interações, em espaços quase sempre fechados e iluminados pela luz bruxuleante da lareira, dão ao filme uma atmosfera de intimidade dolorosa e magnética. Pasolini filma esses momentos com sobriedade, privilegiando o trabalho dos atores e permitindo que seus olhares, gestos e silêncios conduzam a narrativa.

Ainda que o ritmo seja contido, há espaço para explosões de brutalidade — especialmente quando Odisseu finalmente se revela e a vingança toma forma. Pasolini, longe de transformar a cena em espetáculo, a confina a um único espaço, reforçando a intensidade claustrofóbica do confronto. Quando a poeira baixa e o sangue ainda tinge o chão, o filme retorna ao tom meditativo, refletindo sobre o preço da violência e a impossibilidade de voltar a ser quem se era antes da guerra.

É verdade que alguns espectadores podem sentir falta do elemento fantástico da epopeia homérica. Mas O Retorno não busca competir com os épicos cheios de efeitos visuais — sua força está justamente no minimalismo. A fotografia elegante e discreta realça a paisagem natural sem transformá-la em mero cartão-postal, enquanto a direção de Pasolini mantém o foco nos dilemas internos, elevando o drama psicológico sobre o mito.

No fim, O Retorno é um filme de contemplação, mais interessado em perguntar do que em responder. Ele se constrói como uma reflexão sobre o luto, a memória e a dificuldade de se reintegrar após a guerra. Com atuações monumentais de Ralph Fiennes e Juliette Binoche, uma direção que privilegia a intimidade em vez do espetáculo e uma abordagem que traz o mito para perto da carne e do osso, Pasolini entrega uma obra de rara sensibilidade. Talvez não haja ciclopes ou sereias, mas há algo ainda mais poderoso: a certeza de que as maiores batalhas de Odisseu sempre estiveram dentro dele.

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