O Irlandês é mais que um filme de máfia – é uma obra monumental de Martin Scorsese, um épico de mais de três horas e meia que revisita temas que marcaram sua carreira, mas com uma profundidade inédita: o tempo, a velhice, a culpa e o silêncio que resta quando a violência já não é gloriosa nem romântica. Baseado no livro I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt, o filme narra a vida de Frank Sheeran (Robert De Niro), veterano da Segunda Guerra Mundial que se torna assassino a serviço da máfia e, mais tarde, braço direito do lendário líder sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino).
Mais do que contar a história de um homem, Scorsese constrói uma elegia para todo um gênero que ele mesmo ajudou a consolidar. Se em Os Bons Companheiros (1990) e Cassino (1995) a câmera vibrava com energia, celebrando e ao mesmo tempo criticando o estilo de vida dos mafiosos, aqui ela observa com calma, quase com melancolia. O ritmo é mais lento, as cores mais frias, e a narrativa assume um tom confessional.

A história é contada em retrospectiva por Frank Sheeran, já idoso, sentado em uma cadeira de rodas em uma casa de repouso. Ele se dirige a nós como se estivesse dando seu último testemunho. Esse recurso narrativo, já usado em outros filmes de Scorsese, aqui ganha peso dramático: não é apenas um personagem narrando uma vida, mas um homem solitário tentando dar sentido ao que fez antes da morte.
A narrativa se desenrola em duas frentes. A primeira acompanha uma viagem de carro de Frank e Russell Bufalino (Joe Pesci, em uma atuação surpreendentemente contida) até Detroit, para um casamento que servirá de pano de fundo para o desaparecimento de Jimmy Hoffa. A segunda linha, mais ampla, cobre décadas da vida de Sheeran, desde seu trabalho como caminhoneiro até sua ascensão como matador da máfia e, por fim, seu envolvimento com Hoffa.
Scorsese costura essas camadas de tempo com maestria, não se preocupando em simplificar para o espectador, mas criando uma sensação de memória, em que passado e presente se misturam. Essa estrutura reflete não apenas o funcionamento da mente de um velho, mas também a inevitabilidade da morte: tudo caminha para o mesmo destino.

Ao contrário de outros filmes de máfia, O Irlandês não mostra personagens desfrutando da riqueza e do glamour por muito tempo. O filme insiste em lembrar, através de legendas que surgem sempre que um novo personagem é apresentado, como e quando ele morrerá. Essa escolha dá ao espectador a sensação de que a morte está sempre à espreita, inevitável, seja por execução violenta, seja pela decadência natural da vida.
Frank Sheeran, mesmo após uma vida inteira servindo à máfia, termina sozinho, abandonado pela família e esquecido pelos seus antigos comparsas. A solidão e a consciência tardia dos erros tornam o filme um dos mais sombrios da carreira de Scorsese.
O título do livro em que o filme se baseia, I Heard You Paint Houses, é um código da máfia para dizer que alguém é assassino (as “casas pintadas” seriam as paredes manchadas de sangue). O filme explora como a lealdade de Sheeran a Russell Bufalino e à máfia entra em conflito com sua amizade sincera com Hoffa. Quando chega o momento decisivo, Frank escolhe a máfia, eliminando Hoffa em uma das cenas mais frias e dolorosas da filmografia de Scorsese.

Um dos aspectos mais marcantes é a relação de Frank com sua filha Peggy (interpretada por Lucy Gallina na infância e Anna Paquin na fase adulta). Peggy praticamente não fala ao longo do filme, mas seu olhar é devastador. Ela percebe quem o pai realmente é e se afasta dele em definitivo após a morte de Hoffa, por quem tinha grande admiração. O silêncio de Peggy é o julgamento moral que Frank não pode escapar, mais doloroso do que qualquer condenação judicial.
De Niro entrega uma atuação de contenção, quase minimalista. Frank Sheeran não é um homem de muitas palavras ou gestos expansivos; sua brutalidade é silenciosa. Ao contrário de outros protagonistas de Scorsese, que ostentavam carisma ou explosões de violência, Sheeran é um trabalhador do crime, um homem que cumpre ordens. Essa simplicidade torna sua confissão final ainda mais impactante.

O filme marca a primeira colaboração entre Scorsese e Al Pacino, algo aguardado há décadas. Pacino interpreta Jimmy Hoffa com intensidade, energia e carisma. Ele é quase o oposto de Sheeran: barulhento, orgulhoso, incapaz de se curvar. Essa obstinação é sua força, mas também sua ruína.
Se em Os Bons Companheiros e Cassino Pesci encarnava personagens explosivos e violentos, aqui ele faz o contrário: Russell Bufalino é calmo, quase paternal, mas ainda assim implacável. Sua serenidade torna suas ordens ainda mais assustadoras. É uma das grandes atuações de sua carreira, justamente por desafiar a expectativa do público.

Scorsese opta por um ritmo mais pausado, que contrasta com o dinamismo de suas obras anteriores de máfia. A fotografia de Rodrigo Prieto usa tons frios, muitas vezes azulados ou esverdeados, reforçando a sensação de decadência. A trilha sonora, em vez de explosões rock’n’roll como em Os Bons Companheiros, aposta em músicas de época que pontuam a passagem do tempo.
Um dos elementos mais comentados foi o uso da tecnologia de rejuvenescimento digital para permitir que De Niro, Pacino e Pesci interpretassem seus personagens ao longo de várias décadas. Embora o efeito tenha dividido opiniões, é inegável que permitiu uma continuidade dramática única. Ainda assim, muitos apontaram que, apesar dos rostos rejuvenescidos, os corpos dos atores denunciavam a idade real, especialmente em cenas de ação física.

O Irlandês foi amplamente aclamado pela crítica, sendo considerado uma das melhores obras de Scorsese. Foi indicado a dez Oscars, incluindo Melhor Filme, Direção e Ator Coadjuvante (para Pesci e Pacino), embora não tenha vencido nenhuma categoria. Parte da imprensa destacou que a duração longa poderia afastar o público, mas para muitos essa extensão era necessária para transmitir o peso da passagem do tempo.
O lançamento direto pela Netflix também gerou debate. Alguns viram como sinal da transformação da indústria do cinema, enquanto outros lamentaram que um épico tão grandioso não tivesse uma ampla distribuição nas salas. De qualquer forma, o filme se tornou um marco na discussão sobre o futuro do cinema.

O Irlandês é um testamento artístico de Martin Scorsese. É como se o diretor olhasse para trás, para toda a sua carreira, e dissesse: “é assim que essas histórias terminam”. O filme não glorifica, não exalta a vida criminosa; mostra apenas o vazio e a solidão que restam quando tudo já foi perdido.
O último plano, com Frank pedindo para deixarem a porta entreaberta em seu quarto de repouso, é devastador. É o gesto de alguém que ainda espera que alguém volte, que ainda teme a morte, mas que sabe que está sozinho. É a antítese do final de Os Bons Companheiros, em que Henry Hill reclama da vida comum; aqui, não há vida comum, apenas o silêncio e a espera.

O Irlandês é uma obra monumental, tanto em sua duração quanto em sua profundidade. É um filme que exige paciência, atenção e disposição para mergulhar em sua cadência lenta. Mas a recompensa é imensa: Scorsese entrega um dos retratos mais honestos e cruéis sobre o crime organizado, sobre a passagem do tempo e sobre a fragilidade humana.
Não é um filme de ascensão e queda como os anteriores, mas um filme sobre a queda inevitável que vem para todos. É um adeus, um epitáfio cinematográfico para o gênero que Scorsese ajudou a imortalizar, e talvez a última grande reunião desse trio lendário do cinema – De Niro, Pacino e Pesci.
Mais do que uma narrativa sobre a máfia, O Irlandês é um filme sobre envelhecer, sobre a solidão e sobre a impossibilidade de escapar das consequências. E, por isso mesmo, é um dos trabalhos mais poderosos e comoventes da carreira de Martin Scorsese.







