Hulk é um filme que divide opiniões até hoje, seja pelo estilo narrativo ousado ou pela forma com que aborda um personagem icônico dos quadrinhos. Diferente das produções que viriam anos depois, principalmente no bojo do Universo Cinematográfico Marvel, Hulk não aposta em um espetáculo puramente de ação, mas busca se firmar como um drama psicológico sobre repressão, traumas e a difícil relação entre pais e filhos. Essa abordagem diferenciada, aliada a escolhas estéticas marcantes e arriscadas, transformou o longa em um ponto curioso na história das adaptações de super-heróis para o cinema.
Dirigido por Ang Lee, a trama acompanha Bruce Banner (Eric Bana), um cientista brilhante que trabalha em projetos relacionados à regeneração celular e que, por acidente, acaba exposto a uma dose extrema de radiação gama. Essa experiência desperta nele uma transformação monstruosa: quando sente raiva ou é colocado sob estresse intenso, seu corpo se altera, dando origem ao Hulk, uma criatura de força descomunal e difícil de controlar. O conflito central do filme não está apenas no perigo externo que esse monstro representa, mas no peso interior que Banner carrega, relacionado ao passado conturbado com seu pai, David Banner (Nick Nolte), figura central no enredo.

Desde o início, Ang Lee deixa claro que não pretende apenas entregar uma narrativa de origem convencional. O longa utiliza uma linguagem cinematográfica incomum para o gênero, marcada por transições visuais que simulam quadros de histórias em quadrinhos, montagens paralelas e enquadramentos fragmentados, tentando traduzir para a tela o dinamismo da página impressa. Para alguns, esse estilo inovador é fascinante; para outros, quebra o ritmo da história e gera um excesso de experimentação que prejudica a imersão. De todo modo, essa decisão estética reforça a intenção do diretor em dar identidade própria à adaptação.
No centro da narrativa está o drama familiar. A relação entre Bruce e seu pai funciona como motor emocional do filme. David Banner é retratado como um homem obcecado pela ciência, disposto a ultrapassar limites éticos em nome da evolução genética. Seus experimentos acabam recaindo sobre o próprio filho, que, ao crescer, reprime lembranças traumáticas de um lar violento e instável. O trauma reprimido se manifesta de maneira física no presente: o Hulk surge como metáfora da raiva acumulada, do inconsciente que explode diante da incapacidade de Bruce de lidar com suas memórias. Essa camada psicológica é o que diferencia o filme da maioria das adaptações de super-heróis lançadas na época, tornando-o menos voltado ao entretenimento direto e mais inclinado à análise introspectiva.

Jennifer Connelly interpreta Betty Ross, filha do General Thunderbolt Ross (Sam Elliott), que lidera as forças militares contra o Hulk. Betty representa um contraponto fundamental à fúria descontrolada de Bruce: é compreensiva, sensível e tenta ajudá-lo a entender sua condição, funcionando como um elo de humanidade. A química entre Connelly e Bana é sutil, não explosiva, mas encaixa-se bem no tom contido que Lee busca para a obra. Sam Elliott, por sua vez, empresta sua imponência característica ao general Ross, encarnando a rigidez militar que contrasta com o drama emocional vivido pelos outros personagens.
No que diz respeito ao visual, Hulk gerou polêmica na época de seu lançamento. O CGI utilizado para criar a criatura foi considerado inconsistente por parte da crítica, especialmente em algumas cenas externas diurnas, onde a textura e o realismo do personagem ficavam aquém das expectativas. Contudo, ao revisitar o filme, é possível perceber que, apesar das limitações técnicas de 2003, havia um esforço em dotar o Hulk de expressividade facial, aproximando-o de Eric Bana e reforçando o elo entre homem e monstro. Essa escolha mostra que o interesse não estava apenas em criar um ser aterrorizante, mas em transmitir emoções, permitindo que o espectador visse no Hulk o reflexo da dor de Bruce.

A ação, embora presente, não é o foco principal do longa. Cenas como a fuga pelo deserto, em que o Hulk enfrenta tanques de guerra e helicópteros, são impressionantes, mas mesmo nesses momentos Ang Lee prioriza enquadramentos contemplativos e a escala monumental da paisagem. A destruição não é gratuita: ela vem sempre como resposta à perseguição ou como consequência inevitável da raiva reprimida. Esse ritmo mais lento, quase poético, acabou frustrando parte do público que esperava um filme de super-herói tradicional, recheado de combates e explosões a cada minuto.
O clímax do filme acontece no confronto entre Bruce e seu pai, que agora se transformou em uma espécie de ser energético e instável, resultado de seus experimentos. A batalha final não é apenas física, mas simbólica: é a culminação de anos de ressentimento, ódio e rejeição. O embate é confuso em termos visuais, com efeitos que envelheceram mal, mas carrega peso temático. O que está em jogo é a libertação de Bruce de sua herança traumática, mesmo que isso signifique encarar de frente o homem que o moldou em sua dor.

Um dos grandes méritos de Hulk é justamente esse: não tratar o personagem apenas como um monstro descontrolado, mas como metáfora viva de emoções humanas profundas. A raiva, a repressão, a herança psicológica dos pais sobre os filhos – tudo isso é materializado na figura verde gigante. Ang Lee, conhecido por seu trabalho sensível em filmes como O Tigre e o Dragão (2000) e O Segredo de Brokeback Mountain (2005), aplica aqui sua sensibilidade para construir uma narrativa que se aproxima mais de uma tragédia grega do que de um blockbuster comum.
Por outro lado, não se pode ignorar as falhas do filme. O ritmo arrastado em alguns trechos, a duração excessiva (138 minutos) e a falta de um antagonista claro durante boa parte da trama tornam a experiência cansativa para quem busca dinamismo. A tentativa de unir linguagem de quadrinhos, drama familiar e espetáculo de ação resulta em um produto híbrido que nem sempre se equilibra. O público da época, acostumado ao impacto mais direto de adaptações como X-Men (2000) e Homem-Aranha (2002), saiu dividido, e a bilheteria do filme ficou abaixo das expectativas.

Ainda assim, ao longo dos anos, Hulk passou por uma reavaliação crítica. Muitos enxergam nele um precursor de adaptações mais ousadas e autorais no gênero de super-heróis. Sua densidade psicológica e a tentativa de explorar camadas humanas do personagem o colocam em um patamar diferente, ainda que imperfeito. O filme pode ser visto como uma obra de transição: entre o cinema de super-heróis mais experimental do início dos anos 2000 e o modelo consolidado de espetáculo que dominaria a década seguinte com a Marvel Studios.
Hulk é uma obra singular. Não é apenas um filme de ação, nem somente um drama psicológico, mas uma mistura ambiciosa que busca encontrar poesia na destruição e emoção no caos. Seus defeitos técnicos e estruturais são evidentes, mas sua ousadia merece reconhecimento. Ao optar por olhar para dentro do personagem em vez de se contentar com o espetáculo da superfície, Ang Lee entregou um Hulk que talvez não fosse o que muitos queriam ver, mas certamente é um dos mais complexos e reflexivos já retratados no cinema.







