Extermínio: A Evolução (28 Years Later, 2025) marca o retorno triunfante de Danny Boyle e Alex Garland à franquia que redefiniu o cinema de horror no início dos anos 2000. Passadas quase três décadas desde o surto original do vírus da raiva, o filme apresenta um Reino Unido ainda isolado, devastado e fragmentado, onde pequenos grupos tentam reconstruir algum tipo de civilização em meio às ruínas de um mundo perdido. A trama se concentra em uma nova geração que nasceu após o colapso — pessoas que nunca conheceram a vida antes da infecção — e acompanha Spike, um garoto de doze anos que vive em uma comunidade isolada na ilha de Holy Island, junto com seus pais, Jamie e Isla. Quando a mãe adoece misteriosamente, sofrendo com alucinações e sintomas que remetem ao vírus, Spike decide embarcar com ela em uma jornada perigosa até o continente, em busca de um médico recluso que pode ter a cura. Essa jornada, no entanto, revela segredos sombrios sobre o passado da humanidade e sobre a própria natureza da infecção.

Desde o início, Boyle imprime sua marca visual e rítmica inconfundível. Extermínio: A Evolução é filmado com uma energia nervosa e suja, alternando momentos de puro horror físico com passagens contemplativas e melancólicas. A fotografia de Anthony Dod Mantle equilibra a brutalidade do mundo pós-apocalíptico com uma beleza inesperada — os tons frios e azulados das paisagens desoladas se misturam com flashes de verde e dourado, sugerindo que a natureza, indiferente, continua seu curso. O filme faz jus ao título: mostra não apenas a evolução dos infectados, mas também a evolução da própria espécie humana, adaptada à sobrevivência em um cenário de desespero. Os novos tipos de infectados — os “Slow-Lows”, lentos e deformados, e os “Alphas”, mais rápidos, inteligentes e organizados — ampliam o terror biológico e reforçam o senso de imprevisibilidade. Não há mais monstros simples; há predadores conscientes, quase estratégicos, que parecem observar e aprender.
O elenco contribui muito para o peso emocional do filme. Jodie Comer entrega uma performance intensa como Isla, a mãe em decadência física e mental, dividida entre lucidez e delírio. Aaron Taylor-Johnson, no papel de Jamie, encarna o homem endurecido pelas circunstâncias, um pai protetor e ao mesmo tempo um sobrevivente que carrega segredos. O jovem Alfie Williams, como Spike, é o verdadeiro coração da história — sua curiosidade, inocência e coragem conduzem o espectador por uma jornada de amadurecimento brutal. Ralph Fiennes surge como o enigmático Dr. Ian Kelson, cuja presença domina o terço final da trama: um cientista isolado que representa tanto a esperança quanto a ameaça, um reflexo sombrio do que a ciência pode se tornar quando não há mais limites éticos. A interação entre esses personagens cria uma tensão constante, sustentada por silêncios longos, olhares e pequenos gestos que dizem mais do que diálogos.

A força de Extermínio: A Evolução está justamente na forma como mistura o horror físico com o horror emocional. Boyle e Garland não estão interessados apenas em sustos ou carnificina; o que move o filme é a tentativa de entender como a humanidade resiste — e se transforma — após tanto tempo de isolamento e medo. O mundo que resta é regido por rituais e crenças primitivas, quase religiosas, que tentam dar sentido ao caos. A comunidade da ilha, por exemplo, caça infectados como parte de um rito de passagem, enquanto no continente sobrevivem pequenos cultos que veneram o vírus como uma nova forma de vida. O filme é, portanto, sobre fé e desesperança, sobre o que significa ser humano em um mundo onde a humanidade parece ter perdido sua razão de existir.
Visualmente, o filme é impressionante. Danny Boyle retoma o uso de câmeras portáteis e cortes rápidos, criando uma sensação de imediatismo e desconforto. Em várias cenas, a câmera parece dançar entre os corpos dos personagens, aproximando-se e afastando-se como se fosse um dos infectados observando suas presas. O som — elemento essencial no terror — é magistralmente trabalhado: o silêncio das paisagens vazias é cortado por gritos distantes, por passos na água, pelo eco dos ventos atravessando ruínas. A trilha sonora de John Murphy, que retorna à franquia, reaproveita e reinventa temas clássicos, como a icônica faixa “In the House – In a Heartbeat”, agora reconfigurada com tons eletrônicos e melancólicos, simbolizando o choque entre o velho e o novo mundo.

O roteiro de Garland é denso, repleto de simbolismos. Spike é uma metáfora da humanidade pós-epidemia: uma geração que nunca conheceu o passado e que precisa criar seu próprio código moral. Isla representa o corpo humano e emocional em decomposição, enquanto o médico Kelson representa o intelecto que enlouqueceu. O vírus, que antes era apenas uma praga, agora ganha uma dimensão filosófica — ele é visto por alguns personagens como uma força natural de seleção, um tipo de “cura” para a arrogância humana. Esse tipo de abordagem transforma o filme em algo além do gênero de zumbi: é uma parábola sobre decadência e adaptação.
Contudo, nem tudo funciona perfeitamente. Há momentos em que o filme perde ritmo, especialmente no segundo ato, quando tenta equilibrar o drama familiar e o suspense científico. A alternância entre o terror visceral e as longas reflexões pode confundir quem espera um ritmo constante. Boyle aposta em transições abruptas — ora o filme é um pesadelo cinematográfico, ora uma meditação lenta sobre o fim da civilização — e esse contraste, embora interessante, às vezes quebra a imersão. Além disso, o final deixa pontas soltas: é claramente pensado como o início de uma nova trilogia (a sequência The Bone Temple já está confirmada), o que pode frustrar quem busca uma conclusão fechada. Ainda assim, o desfecho deixa uma sensação inquietante, com uma última imagem que promete novos horrores e questionamentos sobre o que é, afinal, “evoluir”.

Entre os pontos altos, destacam-se a fotografia hipnotizante, as atuações intensas e o tom emocional profundo que distingue Extermínio: A Evolução de outros filmes de apocalipse. Boyle consegue fazer o horror parecer íntimo, humano, e Garland oferece diálogos que tratam o medo como uma forma de herança coletiva. A cena em que Spike observa um infectado “Alpha” hesitando diante de um espelho — como se reconhecesse algo de si mesmo — resume bem a proposta do filme: um confronto entre monstros e homens, onde já não se sabe quem é mais racional.
Comparado aos filmes anteriores, 28 Years Later é menos sobre o caos imediato e mais sobre as consequências de viver tanto tempo em ruínas. 28 Days Later mostrava o colapso; 28 Weeks Later mostrava a tentativa de reconstrução; agora, 28 Years Later mostra o que sobra quando a reconstrução falha e o mundo se acostuma ao medo. É uma obra mais madura, mais filosófica, mas ainda visceral. O horror não está apenas nos infectados, mas na ideia de que o ser humano aprendeu a conviver com o desespero, a normalizá-lo. Boyle filma esse novo mundo com um olhar de arqueólogo: não procura respostas, apenas escava o que resta.

Extermínio: A Evolução é uma continuação ousada, melancólica e perturbadora. Mantém viva a essência do original, mas não tem medo de seguir caminhos diferentes. É um filme sobre evolução — biológica, moral e emocional — e sobre o preço de sobreviver por tanto tempo. Boyle e Garland oferecem um espetáculo de horror com alma, um retrato devastador de um mundo que já não é nosso, mas que reflete nossos próprios medos contemporâneos. É o tipo de obra que não apenas assusta, mas também faz pensar, lembrando que, às vezes, a verdadeira ameaça não é o vírus, mas aquilo em que nos tornamos depois dele.







