Birdman (2014): A Queda e Ascensão de Um Homem em Crise

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é uma obra que transcende a noção tradicional de cinema, mesclando drama, comédia e elementos metalinguísticos para construir uma reflexão intensa sobre arte, fama, identidade e o peso da relevância cultural em um mundo cada vez mais fragmentado. Dirigido por Alejandro González Iñárritu e vencedor do Oscar de Melhor Filme, o longa se destaca tanto pela sua ousadia estética — marcada pela ilusão de ser filmado em um único plano-sequência — quanto pela profundidade de seus temas, oferecendo uma experiência cinematográfica única e provocadora.

A trama acompanha Riggan Thomson (Michael Keaton), um ator em declínio cuja fama se consolidou décadas antes ao interpretar o super-herói Birdman em uma trilogia de filmes de grande sucesso. Hoje, envelhecido e esquecido pela indústria cinematográfica, Riggan tenta recuperar sua relevância ao montar uma adaptação teatral de O Que Falamos Quando Falamos de Amor, de Raymond Carver, na Broadway. A empreitada, no entanto, é marcada por dificuldades: crises criativas, problemas de elenco, tensões financeiras, inseguranças pessoais e o peso do julgamento da crítica e do público.

Ao longo da narrativa, o filme embaralha constantemente as fronteiras entre realidade e imaginação. Riggan é assombrado pela voz de Birdman, que encarna seu alter ego arrogante e cínico, lembrando-o de seu passado de glória e cobrando que ele retorne ao caminho do espetáculo comercial. Em paralelo, o protagonista manifesta habilidades aparentemente sobrenaturais, como levitação e telecinese, que podem ser interpretadas tanto como alucinações quanto como manifestações simbólicas de seu estado psíquico.

O grande trunfo de Birdman está na escolha de Michael Keaton para o papel principal. Assim como Riggan, Keaton havia sido mundialmente conhecido por interpretar um super-herói: o Batman nos filmes de Tim Burton, entre o final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Depois disso, sua carreira oscilou, e sua presença em Birdman confere ao filme uma camada metalinguística ainda mais poderosa. A linha entre ator e personagem se torna difusa, dando ao público a sensação de que Keaton não apenas interpreta Riggan, mas revive sua própria trajetória artística e pessoal diante das câmeras.

A atuação de Keaton é visceral, oscilando entre a vulnerabilidade de um homem em crise e os arroubos de ego de alguém que não aceita a irrelevância. Sua performance é amplificada pelas interações com outros personagens que servem como espelhos e catalisadores de suas inseguranças.

Emma Stone interpreta Sam, a filha de Riggan, recém-saída da reabilitação e contratada como assistente na produção. Ela representa tanto o fracasso das relações pessoais do protagonista quanto a visão desencantada da nova geração diante do mundo: cínica, imediatista e crítica das ilusões de grandeza que seu pai ainda cultiva. Seu famoso monólogo, em que acusa Riggan de não ser relevante em um mundo dominado pelas redes sociais, é um dos pontos altos do filme, funcionando como choque de realidade para o protagonista.

Edward Norton, como o ator Mike Shiner, oferece outro contraponto essencial. Ele encarna o talento artístico bruto e o compromisso com a verdade cênica, mas também o egocentrismo e a instabilidade. Sua presença é uma ameaça e, ao mesmo tempo, um estímulo para Riggan, que vê nele tanto o risco de perder o controle da peça quanto a possibilidade de legitimá-la como uma obra de valor.

Zach Galifianakis, surpreendendo em um papel mais contido, vive Jake, o produtor da peça e voz pragmática em meio ao caos, enquanto Naomi Watts e Andrea Riseborough completam o elenco como atrizes envolvidas no projeto, também marcadas por suas inseguranças e desejos de reconhecimento.

Se o roteiro já é ousado, a execução técnica de Birdman eleva o filme a outro patamar. O diretor Alejandro González Iñárritu e o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (vencedor do Oscar por sua contribuição) criaram a ilusão de que o filme foi rodado em um único plano-sequência, sem cortes aparentes.

Essa escolha estética não é mero artifício: ela serve para mergulhar o espectador na mente de Riggan, transmitindo a sensação de fluxo contínuo entre palco, bastidores e vida pessoal. Não há respiro, não há fuga — tudo acontece em tempo real, refletindo a pressão constante a que o protagonista está submetido. Além disso, o recurso reforça a metalinguagem teatral, como se o próprio filme fosse uma peça encenada diante do público.

A câmera flui por corredores estreitos, sobe ao palco, acompanha personagens em discussões tensas, captura momentos de introspecção e se lança em cenas que desafiam a lógica realista. Esse movimento incessante, aliado à trilha sonora quase inteiramente composta por improvisações de bateria de Antonio Sánchez, cria um ritmo hipnótico e, ao mesmo tempo, claustrofóbico.

No coração de Birdman está a questão da relevância. Riggan busca desesperadamente provar que é mais do que um ator de blockbuster esquecido, que pode ser levado a sério como artista. Essa busca reflete não apenas uma necessidade pessoal de reconhecimento, mas também uma crítica mais ampla à indústria cultural contemporânea.

O filme questiona o valor do entretenimento comercial em contraste com a arte autoral. Ao mesmo tempo, denuncia a dependência do olhar externo — seja da crítica, da plateia ou da mídia — como medida de valor. Em última instância, a “inesperada virtude da ignorância” do subtítulo sugere que talvez a grandeza não esteja em conquistar reconhecimento, mas em ignorar as pressões externas e agir em conformidade com a própria essência.

Outro tema recorrente é o embate entre ego e vulnerabilidade. Riggan alterna entre explosões de arrogância e crises de fragilidade, revelando a dificuldade de equilibrar a persona pública e o ser humano por trás dela. Essa tensão é amplificada pelo conflito entre gerações: enquanto Riggan tenta provar sua relevância pela via da arte, sua filha ironiza que a verdadeira relevância hoje se mede em curtidas e seguidores nas redes sociais.

O final de Birdman é um dos mais debatidos da década. Após uma estreia tumultuada e um ato extremo em cena, Riggan acorda no hospital, aparentemente tendo conquistado a consagração artística que tanto buscava. Sua filha, pela primeira vez, olha para ele com admiração. Nos instantes finais, ele se aproxima da janela, e o filme sugere que ele pode ter de fato alçado voo — literal ou metafórico.

Essa ambiguidade é essencial para a obra. Mais do que oferecer respostas, Iñárritu prefere deixar o espectador refletir: Riggan finalmente se libertou das amarras do ego? Atingiu transcendência? Ou tudo não passa de uma ilusão final, um último delírio antes do fim?

Birdman é um filme que exige do público abertura e disposição para navegar em suas camadas. Ao mesmo tempo em que funciona como uma sátira mordaz de Hollywood, dos críticos e do star system, é também uma jornada íntima sobre fragilidade humana, ego e a busca por sentido.

O trabalho técnico é impecável, a direção de Iñárritu ousada e a fotografia de Lubezki inesquecível. Mas é a performance de Michael Keaton que dá alma ao filme, transformando-o em algo mais do que uma experiência visual: um retrato humano, doloroso e, paradoxalmente, libertador.

No fim, Birdman é sobre a luta universal contra a irrelevância, sobre o desejo de ser visto, lembrado e amado. É cinema em sua forma mais consciente de si mesmo — e, por isso, tão poderoso.

Tags:

Categories