Ainda Estou Aqui (2024) – Memória e Resistência

Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, marcou o retorno de um dos mais importantes cineastas brasileiros a uma obra de forte carga emocional, social e histórica. Baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, o longa é uma meditação sobre memória, trauma e resistência — um filme que reflete sobre o Brasil e suas feridas abertas, ao mesmo tempo em que se ancora em uma história profundamente pessoal. Com atuações intensas e uma direção sensível, Ainda Estou Aqui consolida-se como uma das obras mais potentes e necessárias do cinema brasileiro contemporâneo.

A narrativa acompanha a história real de Eunice Paiva (interpretada magistralmente por Fernanda Torres), viúva do deputado Rubens Paiva, sequestrado, torturado e assassinado pela ditadura militar em 1971. O filme, no entanto, não se limita à tragédia do desaparecimento de Rubens: é, sobretudo, um retrato da sobrevivência de Eunice — mulher, mãe e advogada que lutou por décadas para manter sua família unida e reivindicar a memória do marido. O ponto de vista de Eunice se mistura ao de seu filho, Marcelo (vivido por Gabriel Leone), que cresce sob o peso da ausência paterna e das contradições de um país em silêncio.

Walter Salles constrói o filme com a delicadeza que lhe é característica, mas também com uma força política que remete a Terra Estrangeira (1995) e Central do Brasil (1998). Aqui, ele retoma temas centrais de sua filmografia — o deslocamento, a busca por identidade e o confronto entre o íntimo e o coletivo —, mas agora a partir de um olhar mais maduro, quase contemplativo. O cineasta não busca respostas fáceis, nem pretende transformar o sofrimento em espetáculo; prefere o silêncio, os gestos contidos e a memória como matéria viva da narrativa.

A estrutura do filme alterna tempos e perspectivas. O passado e o presente se entrelaçam como fragmentos de uma lembrança que insiste em não se apagar. Salles utiliza a montagem (assinada por Daniel Rezende) para criar uma espécie de fluxo de consciência cinematográfico: memórias familiares, cenas de arquivo e momentos recriados convivem em um mesmo espaço emocional. A câmera, sempre atenta aos detalhes — um olhar, um toque, um retrato —, funciona como testemunha silenciosa de uma dor que atravessa gerações.

Visualmente, Ainda Estou Aqui é um filme de contrastes. A fotografia de Adrian Teijido adota uma paleta de cores sóbria, com tons terrosos e frios, que evocam tanto o luto quanto a resistência. O Rio de Janeiro, cenário recorrente da história, aparece como uma cidade dividida: de um lado, o espaço da lembrança, dos sonhos interrompidos; de outro, a metrópole que insiste em seguir adiante, indiferente às cicatrizes de seu passado político. Essa dualidade reforça o eixo temático do filme — o confronto entre o esquecimento e a necessidade de lembrar.

Fernanda Torres entrega uma das melhores atuações de sua carreira. Sua Eunice é uma mulher fragmentada entre o desespero e a dignidade, entre o amor e a raiva. Salles filma sua personagem com profundo respeito, evitando qualquer idealização: ela é humana, falha, forte e vulnerável. A atriz constrói uma presença que carrega o filme nos ombros, especialmente nas cenas em que o silêncio diz mais do que qualquer diálogo. Gabriel Leone, por sua vez, representa a geração que herdou o trauma sem vivê-lo diretamente. Seu Marcelo é um homem que tenta compreender o peso de um passado que o ultrapassa — um elo entre a dor individual e a história coletiva.

Há também algo de profundamente literário em Ainda Estou Aqui. Salles e o roteirista Gustavo Pizzi (de Benzinho) mantêm o espírito memorialista do livro de Marcelo Rubens Paiva, mas o traduzem em uma linguagem cinematográfica própria. O filme é uma carta de amor à memória — e, simultaneamente, um grito de denúncia. Em vários momentos, o texto de Paiva ecoa nas falas dos personagens, transformando lembrança em poesia, dor em resistência.

A trilha sonora, discreta e melancólica, acompanha essa atmosfera de introspecção. Salles, como em suas obras anteriores, usa a música de modo econômico, quase como um sussurro emocional. Sons do cotidiano — passos, portas que se fecham, o vento, o ruído da cidade — assumem um papel simbólico, como se o tempo todo o passado sussurrasse nos ouvidos dos personagens.

O filme também se destaca pela maneira como aborda a ditadura militar sem recorrer ao didatismo. Salles evita o panfleto e opta por uma narrativa humana, centrada nas consequências subjetivas da violência política. A repressão, aqui, aparece nas entrelinhas: nas portas batidas, nas vozes caladas, nas ausências que se tornam presença constante. O desaparecimento de Rubens Paiva é mais do que um evento histórico — é uma ferida aberta que molda o destino de uma família e, por extensão, de um país inteiro.

Um dos méritos de Ainda Estou Aqui é o equilíbrio entre o pessoal e o político. Ao narrar a vida de Eunice, o filme não apenas resgata uma história individual, mas também lança luz sobre uma das páginas mais sombrias da história brasileira. E faz isso sem manipular emoções, sem recorrer à espetacularização do sofrimento. A força do filme está na contenção — em mostrar o impacto do trauma de forma íntima, através dos silêncios e da persistência.

A presença de Fernanda Montenegro como Eunice idosa (em participação especial) acrescenta uma camada simbólica à obra. Sua voz e seu olhar sintetizam a passagem do tempo e o peso da lembrança. Em uma das cenas mais emocionantes, ela lê uma carta deixada pelo marido desaparecido — momento que resume o espírito do filme: uma tentativa de manter viva a voz dos que foram silenciados. É cinema político, mas também profundamente humano.

O trabalho de Walter Salles dialoga diretamente com a tradição do cinema brasileiro de resistência, evocando nomes como Glauber Rocha, Ruy Guerra e Eduardo Coutinho, mas com uma abordagem mais intimista. Se Glauber clamava por revolução, Salles busca reconciliação; se Coutinho escutava as vozes do povo, Salles as traduz em imagem e memória. Há em Ainda Estou Aqui uma consciência de que o Brasil ainda precisa encarar seus fantasmas — e que a arte pode ser o espaço dessa catarse.

A escolha do título, por si só, é reveladora. “Ainda estou aqui” não é apenas uma afirmação de presença, mas um gesto de enfrentamento. É Eunice dizendo que sua luta não terminou, é o próprio cinema brasileiro reafirmando sua vitalidade diante das tentativas de apagamento. Em um momento histórico em que discursos revisionistas e negacionistas tentam reescrever o passado, o filme de Salles surge como um ato de resistência poética e política.

No desfecho, Ainda Estou Aqui não oferece catarse nem reconciliação plena. O que resta é a permanência da memória — fragmentada, dolorosa, mas viva. Salles parece dizer que o passado não passa, e que lembrar é uma forma de continuar existindo. A última imagem, com Eunice observando o mar em silêncio, é uma síntese perfeita: o olhar que abarca tanto a ausência quanto a esperança.

Ainda Estou Aqui é uma das obras mais maduras e comoventes de Walter Salles. Um filme que combina densidade emocional, precisão estética e relevância histórica de modo raro no cinema brasileiro recente. É uma homenagem àqueles que resistiram, aos que desapareceram e, sobretudo, aos que continuam lutando para que a verdade não seja esquecida.

Mais do que uma história de perda, Ainda Estou Aqui é um gesto de amor — amor à família, à memória e ao próprio país. Um filme que olha para o passado não para se aprisionar nele, mas para lembrar que, mesmo diante da dor e do esquecimento, há sempre alguém que permanece, alguém que diz, com firmeza e ternura: ainda estou aqui.

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